Lei versus Graça em Paulo (Parte 1)

     Mostraremos a seguir algumas provas de que a lei mosaica (que é o centro do Antigo Concerto) teve fim em Cristo, que nunca se aplicou a nós e que agora, na dispensação da graça, nem mesmo os judeus precisam guardá-la como meio de alcançar a salvação.
    Não é preciso dizermos que quando na Bíblia mostra Deus falando que o sábado é um sinal entre Ele e seu povo ele está se referindo ao povo de Israel e não à nós, gentios. Já que a aliança mosaica era parte do pacto que Deus fez com Abraão, quando lhe prometeu uma descendência e uma terra para esta descendência. Veja:
“tu (Moisés), pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: certamente guardareis meus sábados, porquanto isso é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica” (Êx 31. 13).
“entre mim e os filhos de Israel será um sinal para sempre; porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e restaurou-se” (Êx 31. 17).
    Fica óbvio que, tanto a circuncisão quanto o sábado eram sinais da aliança firmada com os descendentes de Abraão apenas. No entanto, nosso presente estudo visa ir além disso e mostrar que nem mesmo os que são judeus precisam continuarem a guardar a lei.

  • Paulo afirma que aquele que vive no tempo da graça inaugurado pelo Novo Pacto em Cristo (época da igreja) e está querendo servir a Deus segundo os parâmetros do Antigo Concerto (o mosaico, isto é, o da lei) tem uma atitude equivalente a querer aniquilar (Gr. atheto, “anular”) a graça de Deus, (Gl 2. 21), dela cair (Gr. eksepeste, “perder” – Gl 5. 4), e estar separado (Gr. katergethete, “cortado” , “sem nenhuma ligação”) de Cristo. Em outras palavras, é o mesmo que desprezar o valor superior do Novo Concerto (Hb 7. 22; 8. 6; 9. 15) e a eficácia eterna do sacrifício de Cristo (Hb 10. 10) substituindo-os pelas obras que a lei exige (Rm 11. 6); algo que não é requerido na dispensação da graça (Rm 6. 14).

  • A atitude contraditória de alguém que quer voltar-se à lei mosaica como meio de justificação é acentuada por Paulo e por ele explicada em Gl 2. 18; 3. 1-3; Cf., Rm 2. 25, 27; Tg 2. 11;

  • Paulo dá seu próprio testemunho com relação à antiga vida que ele vivia como um judeu normal que tenta guardar os mandamentos para impressionar a Deus e depois descobre que isso não adiantou em nada (Gl 1. 13-16; 4. 8-10; Fp 3. 4-19);

  • A doutrina da graça pregada por Paulo exclui toda e qualquer tentativa de auto justificação inerente às obras praticadas com o intuito de barganhar a salvação (Rm 4. 4, 5; 9. 31, 32; 10. 3). Ele afirma categoricamente que uma das diferenças básicas entre o novo concerto e o antigo é que no Novo Concerto a pessoa deve manifestar fé em Cristo e ser influenciada pelo Espírito de Deus em seu interior (Rm 3. 27, 28; 8. 1-3);

  • A chamada de Deus para a salvação leva em conta seu propósito pela graça, ou seja, ninguém é salvo por ser totalmente obediente à lei ou simplesmente por executar os mandamentos de Deus (2Tm 1. 9; Tt 3. 5; Tg 2. 10), pois a lei não tem a capacidade de dar a força necessária para que o homem vença o pecado (At 13. 39; Rm 3. 20; 8. 3).
    Passaremos agora a mostrar algumas analogias usadas por Paulo para ilustrar que a Lei mosaica, sinal do Antigo Concerto, não exerce nenhuma influência e não tem a mesma importância na Nova Aliança, que é centralizada no sangue de Cristo (Hb 9):

  • Paulo refere-se à Lei (Antiga Aliança) como uma babá (Gl 3. 24, 25). Naqueles tempos, o aio era o homem escravo que servia de babá dos filhos do seu patrão até que eles atingissem a maioridade). Ora, crescendo o infante, era óbvio não precisar mais dos cuidados que lhe eram prestados se ainda fosse criança. A babá fica obsoleta quando a criança cresce. Da mesma forma se dá com a Lei. Era servia apenas para refrear o pecado, mostrando a culpa e preparando o caminho para a chegada da graça, que foi inaugurada com a vinda de Cristo. Ele é a plenitude da nossa maturidade e liberdade espiritual. Paulo conclui dizendo claramente que: “agora que chegou o tempo da fé, não precisamos mais da lei para tomar conta de nós” (Gl 3. 25 NTLH).

  • Em outra analogia (Gl 4. 21-31), Paulo compara as duas alianças com as duas mulheres de Abraão: Sara, a mulher legítima, que era livre; e Agar, a concubina que era serva de Abraão e Sara. Ele diz que somente os filhos da esposa livre é que teriam parte na herança (v. 30) Elas são comparadas também a  dois montes e seus habitantes (vv. 24-26). Ele afirma que os filhos escravos são os habitantes da Jerusalém terrena (ele refere-se ao monte Sinai, dizendo que equivale à Jerusalém terrena, dando a entender de que ele fala figuradamente da Lei mosaica, que foi ratificada no monte Sinai), estes são os filhos espirituais de Agar, a escrava, e por isso, são escravos também. Mas os filhos espirituais de Sara são livres da Lei, e seu lugar de habitação é a “Jerusalém que é de cima” (v. 26). Ele afirma que “somos filhos não da escrava, mas da livre” (Gl 4. 31). Paulo repete este pensamento em Rm 9. 7, 8. Em Cristo, nós que no pecado éramos criaturas, fomos adotados no sangue de Jesus e temos tornamo-nos herdeiros da promessa (Ef 1. 5, 11, 12). Somos os verdadeiros participantes da herança celeste! Veja Rm 8. 16; Hb 11. 16.

  • Em Rm 7. 1-6 Paulo usa a analogia do casamento que termina com a morte do marido, liberando a mulher para casar-se novamente com outro homem, na forma legal da lei civil. Ele afirma que, se a mulher ficar com outro homem enquanto o marido ainda estiver vivo, será acusada de adultério, e justamente julgada pela lei. Nesta comparação, Paulo nos diz que, pelo sacrifício substituto de Cristo na cruz, era se como se nós estivéssemos morrido, e por isso, estamos livres da Lei (2Co 5. 14). Ele declara enfaticamente, em Rm 7. 4: “assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais doutro, daquele que ressuscitou de entre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus”, e, no v. 6: “mas, agora, estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra”. Servir no estilo da Antiga Aliança, seria, no mínimo, um ato anacrônico! Paulo diz que a morte de Cristo nos tira das garras da condenação da lei (Gl 3. 10-13) e nos dá a capacidade de vivermos uma nova vida, não mais submetida pela lei, mas liberta pela graça (Rm 6. 14; 2Co 5. 15).

  • Em Rm 4. 9-25 Paulo dá o exemplo de Abraão, o pai da fé, que foi considerado justo por Deus, não pelo cumprimento de preceitos cerimoniais e legalistas (a circuncisão), mas por sua fé pura, pois sabemos que Abraão foi declarado justo por Deus antes de ser circuncidado, e não depois. Nisto fica provado que Deus sempre considerou a fé mais importante do que a guarda de certas leis. Abraão tinha fé para obedecer, para depois ter a bênção; mas não obedecia para poder ter fé, interessado somente nas bênçãos.
     Existem outras expressões fortes usadas por Paulo para denunciar o fim da lei, dentre elas, podemos destacar as seguintes:

  • Na versão de Almeida, Revista e Corrigida, existe, em 2Co 3. 14, a expressão que diz que o Velho Testamento foi abolido por Cristo. A palavra grega traduzida por “abolido” vem do verbo καταργεω (katargeo), que é traduzida por “removido” na versão de Almeida, edição Revista e Atualizada. Esta palavra grega tem o sentido de “tornar nulo, inoperante, sem força, privar de poder ou influência, ser posto de lado, ser anulado, abolido, afastado, separado, ficar ineficiente” (Concordância de Strong, ver 2673). No trecho de 2Co 3. 7-18, Paulo contrasta os privilégios das duas alianças e mostra a transitoriedade da Antiga Aliança mosaica e a superioridade da Nova, como faz o autor da epístola aos Hebreus em 8. 6-13.

  • Paulo também diz que a Antiga Aliança deu lugar à Nova, pois Cristo veio para Cumprir a Antiga Aliança, estabelecendo uma Aliança eterna e superior. Com a morte de Cristo a Antiga Aliança foi abolida e teve fim (Veja Rm 3. 20-26; Compare com Rm 10. 4).

  • Em Ef 2.14-16 note a força destas palavras que aparecem em negrito (negrito nosso) no texto abaixo:
   “porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derribando a parede de separação que estava no meio, na sua carne, desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e, pela cruz, reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades”.
     Neste texto, percebemos claramente que Paulo refere-se à Lei mosaica, visto que ela servia realmente de um muro de separação entre judeus e gentios, promovendo inimizade entre estes dois povos. Mas a obra efetuada por Cristo na cruz foi capaz de derribar, desfazer e matar este empecilho, e reconciliar ambos os povos (os judeus, que tinham uma lei que não salvava, Gl 3. 21; e os gentios, que viviam sem lei, Rm 2. 12; 7. 14; Ef 2. 11, 12). É por isso que Paulo diz que todos (sejam judeus ou gentios) estão separados, distantes de Deus (Rm 3. 23). O único caminho para judeus e gentios se aproximarem de Deus está em Jesus Cristo (Jo 14. 6; Rm 3. 24-26; Ef 2. 13, 14). Esta é a razão de Paulo dizer que, em Cristo, agora não existe (porque foi anulada) mais nenhuma diferença (a Lei de Moisés) entre judeus e gentios (At 10. 34; Rm 10. 12; 1Co 7. 19; Gl 3. 28; 5. 6; Ef 2. 18, 19; 3. 6; Cl 3. 11). A graça nos capacita a sermos agradáveis a Deus por Cristo Jesus.

  • Vejamos agora o texto de Cl 2. 13-17, 20-23, notando as palavras fortes que mostram a inoperância da Lei na época da graça:
“E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.  Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo. Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum, senão para a satisfação da carne”.
    Paulo afirma neste texto que a tentativa de se justificar diante de Deus através da lei nada mais é do que um tipo de falsa doutrina baseada “em preceitos e doutrinas de homens” e que estes ensinamentos “não são de valor algum”, pois, agora, na dispensação da graça, ninguém pode nos julgar por não estarmos fazendo coisas que eram apenas ilustrações (sombras) do que teve fim na obre de Cristo. Estas ilustrações e “mandamentos  que eram contrários a nós, nas suas ordenanças”, Cristo os tirou “do meio de nós” e cravou-os na Cruz, tendo-os anulado (riscado). Desta forma ninguém mais pode nos ordenar uma maneira de servir a Deus “ainda” no legalismo, dizendo “não toques, não proves, não manuseies”, pois Jesus já nos “vivificou” e “perdoou os nossos pecados” enquanto ainda estávamos mortos e na incircuncisão da nossa carne”.
      E o que Cristo fala sobre este assunto?
      Alguns usam o texto de Mt 5. 17 para dizer que Cristo não aboliu a lei do Antigo Pacto: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir”. Este versículo apenas significa que Jesus não veio opor-se à lei. A palavra traduzida para “destruir” é καταλυω (kataluo) significa: (A) Destruir (Confira Mt 27. 40); (B) Derribar (Mc 13. 2); (3) Desfazer (2Co 5. 1). Jesus não veio destruir o valor da Lei, pelo contrário, como Ele mesmo disse, sua missão era cumprir à Lei. Mas como Ele faria isso? Cumprindo suas profecias e tipologias na Cruz do Calvário. Ele não veio para desobedecer à lei. Se houvesse desobedecido, não poderíamos receber de sua justificação. Ele veio para “cumprir” (Grego: Pleroo) a lei, ou seja, torná-la plena, completar, dar fim à sua existência pela consumação do seu objetivo (Lc 24. 25-27, 44; Jo 5. 45-47; Rm 10. 4).
    Jesus tinha que obedecer à lei para ser nosso substituto, podendo vencer a lei, a morte e o pecado para que nós tivéssemos liberdade, vida e perdão. Agora que Cristo cumpriu a lei de Moisés por nós, devemos cumprir a Lei de Cristo (1Co 9. 21; Gl 6. 2) e do Espírito (Rm 8. 2) e não mais a lei de Moisés, mas a lei da liberdade (Tg 2. 12).
   Para mais detalhes sobre a diferença entre a Antiga e a Nova Aliança (parte 2 do nosso estudo), acesse o link, clicando aqui.
    
   Que você, amigo leitor, possa ter compreendido melhor o plano da salvação através deste estudo. Qualquer dúvida, favor postar nos comentários.
    A graça de Deus seja com todos.
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